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Mestres do Documentário - Eduardo Coutinho e Michael Moore

Atualizado: 6 de fev. de 2020

A terceira parte da nossa pequena série sobre grandes documentaristas vem na esteira de uma grande notícia: UM FILME BRASILEIRO FOI INDICADO AO OSCAR DE MELHOR DOCUMENTÁRIO! YES! Mas apesar de PETRA COSTA ser um dos maiores talentos cinematográficos brasileiros do momento ela ainda não faz parte desta lista. "DEMOCRACIA EM VERTIGEM"(2019), o indicado, é polêmico, bem construído e tem realmente todos os ingredientes que o Oscar procura ao selecionar os documentários. Mostra a derrocada de Dilma e do PT durante o processo de impeachment/golpe parlamentar de 2016. Mesmo a indisfarçável parcialidade do filme não é um problema neste caso, pois Petra é uma artista de senso estético apuradíssimo, uma grande "autora"; e não se espera nada dela que não seja absolutamente pessoal, portanto imbuído de alguma parcialidade, mesmo que ela se esforce em rota oposta. Mas, pelo feito inédito, vou colocar a Petra nas mesmas condições de outros gênios citados aqui e te indicar outro filme dela, na minha modesta opinião muito melhor do que este: É "ELENA", de 2013, uma pequena joia imperdível para quem gosta de documentários pessoais e biográficos, em que Petra procura sua irmã mais velho, que viajou a Nova York 20 anos antes, atrás do sonho de ser atriz. NÃO PERCA!

E já que o assunto é documentário político, escolhi falar sobre dois dos maiores documentaristas da história do cinema: Eduardo Coutinho e Michael Moore.


EDUARDO COUTINHO

O cineasta Eduardo Coutinho.

Veja bem: fazer documentário político não é necessariamente fazer documentários SOBRE política. Porque o documentário Político tem lado, tem objetivos políticos intrinsecamente ligados aos narradores. Já documentários SOBRE Política precisam ser neutros, se preocupando apenas com fatos objetivos preferencialmente equilibrados entre os lados de uma questão. Mas embora o documentário mais célebre de Eduardo Coutinho seja assim, seja assim, Eduardo Coutinho evoluiu para uma tinguagem e uma metodologia que evitava o pré-julgamento das estórias. E acabou reconhecido em boa parte do mundo como um dos maiores documentaristas da história do cinema. Para seguir o padrão citarei apenas três de suas obras primas, mas é um diretor que vale uma maratona, com a obra completa. Infelizmente Coutinho morreu numa violenta tragédia familiar, assassinado pelo próprio filho, que sofria de esquizofrenia. Mas deixou uma obra incomparável e uma leva de fãs e admiradores que aprenderam com suas lições. Como é o caso de Petra Costa...

Você PRECISA assistir:

CABRA MARCADO PARA MORRER (1983): Em 1962, o líder da liga camponesa de Sapé (PB), João Pedro Teixeira, é assassinado por ordem de latifundiários. Um filme sobre sua vida começa a ser rodado em 1964, com a reconstituição ficcional da ação política que levou ao assassinato e direção de Eduardo Coutinho. As filmagens são interrompidas pelo Golpe Militar de 1964. Dezessete anos depois, em 1981, Eduardo Coutinho retoma o projeto e procura Elizabeth Teixeira e outros participantes do filme interrompido. Impactante e inovador, "Cabra" é considerado um dos 100 melhores filmes da história do cinema brasileiro, foi um grande sucesso de público e premiado no Festival de Berlim.

Mas o fato é que Coutinho era, acima de tudo um artista inquieto. E após esse grande triunfo nos documentários políticos, Coutinho explorou, através de seu enorme dom de entrevistador, personagens, lugares e até a metalinguagem cinematográfica. Coutinho ama as nuances humanas e as expõe sem julgamentos, desnudando grandes personagens escondidos no cotidiano.

Este é caso de EDIFÍCIO MASTER (2002), que registra o cotidiano dos moradores do Edifício Master, em Copacabana, e apresenta um rico painel de histórias. Com 276 apartamentos e 12 andares, o local serve de moradia aos entrevistados, que revelam dramas, solidões, desejos e vaidades. Acertou em cheio de novo.

Mas quando todos achavam que sua criatividade tinha atingido os limites ele surpreendeu de novo ao explorar temas metalinguísticos misturando realidade e dramaturgia em JOGO DE CENA (2007), em que um concurso dá origem a histórias de vida de mulheres, que depois são interpretadas por atrizes, em depoimentos. Mais um ponto pro gênio dos depoimentos.


MICHAEL MOORE

Michael Moore

Michael Moore talvez seja o mais bem sucedido documentarista da história (seus filmes já faturaram cerca de US$ 350 milhões nas bilheterias mundiais), mesmo que não lance nada memorável há alguns anos. Isso porque ele simplesmente foi o responsável pela popularização do gênero entre o final dos anos 90 e início dos 2000.

Conhecido pela sua postura crítica, sobretudo em relação à violência armada da sociedade americana, às grandes corporações, às desigualdades econômicas e sociais, Moore conseguiu misturar documentário político e humor escrachado, surpreendentemente o público do final dos anos 90 e fazendo grande sucesso. Também são célebres suas provocações mirando a hipocrisia dos políticos norte americanos, tendo sido um crítico mordaz e irreverente a George W. Bush e à invasão do Iraque.

Moore é um manipulador de emoções assumido e um montador talentosíssimo. Ele não tem pudores quando se trata de conscientizar as plateias, especialmente as norte americanas, a respeito de problemas sociais de extrema importância. Diferentemente de Coutinho, o apego a um único estilo de documentários (e uma posição política já "manjada" pelo público) acabaram afastando o público de Moore, que não lança um sucesso há muitos anos.

Você PRECISA assistir:

Moore começou a definir um certo estilo de fazer documentários com ROGER E EU (1989), onde ele tenta encontrar Roger Smith, presidente da General Motors, para esclarecer a demissão em massa e o fechamento de onze fábricas em Flint, no Michigan. A decisão da GM contribuiu pra a derrocada da cidade no fim da década de 80.

TIROS EM COLUMBINE (2002), um líbelo anti-armamentista de grande impacto, inovador na linguagem e chocante no conteúdo, o longa aborda a cultura armamentista americana através da análise do massacre perpetrado por dois jovens portando várias armas de grosso calibre contra alunos da Columbine High School em 1999. Foi o primeiro massacre ocasionado por "bullyng", e infelizmente ficou registrado na memória tanto de vítimas quanto de criminosos, que em mais de uma ocasião tentaram imitá-lo, inclusive no Brasil. Além disso, o documentário ficou marcado por detonar a imagem de Charlton Heston, uma velha estrela de Hollywod que defendia vorazmente o direito a poder comprar e ter em casa armas de grosso calibre. O filme fez grande sucesso em todo mundo, faturou o Oscar e transformou Moore na maior estrela de documentários na época.

Na sequencia veio FARENHEIT 09/11 (2004) foi a consagração total. Documentário mais lucrativo até então, foi o primeiro blockbuster documental da história, rendendo mais de US$ 120 milhões em bilheterias só nos EUA. Explorando a fundo os motivos que o governo do então presidente americano George Bush Filho teve para lançar o país em uma guerra contra o Iraque e o Afeganistão, além de examinar sua atuação durante os incidentes do 11 de Setembro, o filme é uma mistura explosiva de conspirações, provocações ao ex presidente e humor.

Com seu jeito bonachão, progressista e piadista, Moore redefiniu e aumentou consideravelmente o espaço dedicado a documentários no cinema, na TV e na mídia.

Fique ligado no blog para conhecer outros documentaristas geniais nas próximas semanas e não se esqueça de se inscrever no meu canal do Youtube!

Até lá!




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